panorâmicas

panorâmicas
a evolução do homem

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

mandala

mandala
desenho geométrico
papel, lápis aquarelável, quadradinhos de 3x3mm

(maria fernanda)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

domingo, 10 de agosto de 2008

desenho


desenho
papel, lápis aquarelável, quadradinhos de 3x3 mm

(maria fernanda)

sábado, 2 de agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

a medida na paixão

"é como se a gente não soubesse
pra que lado foi a vida,
por que tanta solidão.
e não é a dor que me entristece,
é não ter uma saída,
nem medida na paixão.
foi, o amor se foi perdido,
foi tão distraído,
que nem me avisou.
foi, o amor se foi calado,
tão desesperado,
que me me machucou.
é como se a gente pressentisse,
tudo que o amor não disse,
diz agora essa aflição.
e ficou o cheiro pelo ar,
ficou o medo de ficar,
vazio demais meu coração.
foi, o amor se foi perdido,
foi tão distraído,
que nem me avisou.
foi, o amor se foi calado,
tão desesperado,
que me me machucou."

(não é minha, é de lenine, viu?)

é tão linda, tão linda, tão linda; uma letra dessas merece estar em todos os blogs, nos poemas, nas cartas de amor, merece ser cantada, ser lida, ser lembrada, e ser entendida.

porque a maior dor de amor, não é aquela que se sente pelo amor que foi embora, mas é aquela do vazio que ele deixa no coração, "é como se a gente não soubesse, pra que lado foi a vida, por que tanta solidão."

terça-feira, 29 de julho de 2008

troca-letra

eu sem pensar em você não
sim te ter por perto
com teu amor dormir
mas você ao acordar
nem querer lembrar
que pensar que sem você
é não te ter por perto
não há amor dormir sem você
e lembrar de acordar
nem pensar
em não te querer
perto do teu amor
nem dormir
com você acordar sempre
pra te lembrar, agora

(maria fernanda)

a espera

de verso em verso
de palavra em palavra
se constrói a prosa
se completa a aura

de gesto em gesto
de jeito em jeito
se abraça o corpo
se educa o outro

de corpo em corpo
de boca em boca
se afoga a mágoa
se enamora a alma

de adeus em adeus
de depois em depois
se espera um dia
se espera em vão

(maria fernanda)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

quinta-feira, 10 de julho de 2008

buraco negro

quanto suporta meu peito?
retrato da minha sutil existência.
dúvida constante; indagação.
questão sem resposta?
num instante transborda o coração da vida que carregamos conosco.
reconheço cada um no seu espaço: a saudade, meu amor, o medo, angústia, frágil (felicidade), pensar.
num vulto, de um sorriso uma lágrima, da ira o abraço.
quem dosar, como distribuir, o que carregar, pra quem abrir, até quando?
a falta do seu amor compete com a ânsia da minha decisão; o coração repleto de sonhos, em guerra com o pesar racional.
dia após dia gera-se a dúvida, o som do mistério.
quanto (e o que) mais caberá em meu peito?

(maria fernanda)

terça-feira, 24 de junho de 2008

solidão

nunca pensei
que em um coração tão pequeno
houvesse tanta solidão

nunca pensei
que em tanta solidão
houvesse tão pouco espaço

nunca pensei
que em tão pouco espaço
houvesse tanto vazio

mas sempre achei
que em tanto vazio
coubesse mais, muito mais
que meu pequeno coração

(maria fernanda)

domingo, 22 de junho de 2008

yo


de repente um repente

"prepare o seu coração
pras coisas que eu vou contar
eu venho lá do sertão
eu venho lá do sertão"

no seu espaço deixar um recado
sobre a viagem que deu errado
sobre a ida pra capital
e sobre meu sumiço e tal

"a todo mundo eu dou psiu
perguntando por meu bem
tu que andas pelo mundo
tu que tanto já voou"

sabe bem a dificuldade
de às vezes encontrar
quem a gente quer
quem a gente quer

"e na margem do são francisco
onde nasceu a beleza
e a natureza ela conservou
jesus abençoou com sua mão divina"

e pra não morrer de saudade
voltei pra petrolina
com saudade daqueles que vi
sem ver muita gente que quis

"juntos vamos esquecer
tudo que doeu em nós
nada vale tanto pra rever
tempo que ficamos sós"

e cheia de novidades voltei
só, e sozinha ficarei
cheia de vontade retornarei
ainda num mês que acertarei


(maria fernanda)

la vie en rose

tua carne e teus músculos
a pele e pelos a me roçar
teu cabelo pra afagar

o silêncio do teu sono
tuas coxas em minhas coxas
teu cheiro no travesseiro

ao te saber ao lado
não preciso de flores
nem corpo colado


abraça-me o coração
farta-me a alma
arrebata-me a solidão

nem tão perto é necessário
porque apenas presente
o mundo gira à mercê

o negro da noite, o azul do dia
são banais, são para outrem
porque em ti, je vois la vie en rose

(maria fernanda)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

gatuno

gatuno
gato preto, vai dar sorte
papel de revista preto e cinza cortado em quadradinhos (4x4mm), tirinhas de letrinhas (3x100mm), cola, cartolina

(maria fernanda)

quem sabe?

não sei mais o que pensava.
não sei mais o que sonhei.
com quem falei?
por que me calei?
por que não sei?
simplesmente,
porque não sei.
é um vazio.
preenchido de espaço.
uma lacuna, completamente cheia.
as idéias que eu criei.
a teu respeito divaguei.
porque simplesmente.
tive medo.
de sonhar e de pensar.
que te ter era melhor que te perder.
mas você foi quando eu nem esperava.
e percebi que o que sonhei,
estava longe do que vivi.

(maria fernanda)

terça-feira, 20 de maio de 2008

espetáculo em papel












artista peter callesen.
exposição de arte na galeria de arte moderna de hirshhorn em washington dc.
tudo em papel.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

mundo novo

mundo novo
nossa terra azul, refletindo em suas águas a delicada natureza
papel de revista colorido cortado em quadradinhos (4x4mm), tirinhas de letrinhas (3x30mm), cola, cartolina
(maria fernanda)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

sou eu que quero

cada vez menos te quero longe.
cada vez mais te quero sempre.
cada vez pouco não te quero tampouco.
cada vez muito te quero de novo.
cada vez sempre te quero presente.
cada vez nunca te quero depois.
cada vez logo te quero na hora.
cada vez vezes nem distante te quero.
porque a cada ontem te quero, hoje.
e hoje, cada vez mais te quero amanhã.

(maria fernanda)

terça-feira, 13 de maio de 2008

a natureza das coisas

amanhã pode acontecer tudo
inclusive nada
se avexe não
a lagarta rasteja até o dia
em que cria asas
se avexe não
que a burrinha da felicidade
nunca se atrasa
se avexe não
amanhã ela pára na porta
da sua casa

se avexe não
toda caminhada começa
no primeiro passo
a natureza não tem pressa
segue seu compasso
inexorávelmente chega lá
se avexe não
observe quem vai subindo a ladeira
seja princesa ou seja lavandeira
pra ir mais alto vai ter que suar
(petrúcio amorim)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

tenho

tenho tantos sonhos.
tenho realizado tão pouco.
tenho muita vontade.
tenho gasto demais.
tenho excessivas dívidas.
tenho fome de vida.

tenho sono pela manhã.
tenho garra as madrugadas.
tenho criado em demasia.
tenho planejado em desencontro.
tenho encontrado erros.
tenho sede de paz.

tenho erros em cadência.
tenho tempo de sobra.
tenho pressa às tardes.
tenho medo do escuro.
tenho paciência partilhada.
tenho amor ao homem.

e tenho feito o quê?


(maria fernanda)

sábado, 3 de maio de 2008

pôr-do-sol no bate-boca

curaça, bahia




xique-xique na bahia




xique-xique na bahia




xique-xique na bahia




xique-xique na bahia



represa de sobradinho




rio são francisco, petrolina e juazeiro




rio são francisco, petrolina e juazeiro




rio são francisco, petrolina e juazeiro




represa de sobradinho



represa de sobradinho




travessia de rodeadouro




juazeiro da bahia




latitude 9




represa de sobradinho



03/05, dia do sol





sábado, 26 de abril de 2008

um só coração sozinho

ando tão inundada de sentimento.
tão afogada de angústias.
tão cheia de questionamentos.

que estive prestes a transbordar.
tanta dor.
tanta lágrima.
tanta ansiedade.

dentro de um coração sozinho.
dentro de um só coração.

e a toda volta, pra onde olho.

vejo mais ainda sentimento.
mais angústia.
me questiono ainda mais.

que estive prestes a perguntar.
pra que tanta dor.
pra que tanta lágrima.
pra que tanta ansiedade.

dentro de um coração sozinho.
dentro de um só coração.

(maria fernanda)

sábado, 19 de abril de 2008

bu

achei que tinha te enterrado bem fundo.
coberto com gente nova.
outras fotos, outras músicas.
novas propostas.
achei que tinha te enterrado bem fundo.
longe dos meus planos.
perto do meu passado.
ali, num tempo atrás.
achei que tinha te enterrado bem fundo.
mas você ressurgiu nos sonhos
e dos sonhos nas conversas.
nos encontros ao acaso.
achei que tinha te enterrado bem fundo.
mas descobri que quanto mais fundo.
quanto mais longe eu te quis.
mais força eu fiz pra te trazer de volta.

(maria fernanda)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

insônia

longa madrugada.
de tão longa, lenta.
de tão lenta, pára.
para em si.
parar em mim.

doce sonho.
de tão doce, fácil.
de tão fácil, raro.
para em si.
viver em mim.

(maria fernanda)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

afffffff

pense numa saudade.

saudade

estou longe.
tão longe.
de você tão perto.
tão mais perto.
e dentro.
lá dentro.
torna o tempo.
tão longo.
longo.
e tão vasto.
o espaço.
é largo.
o abraço.
forte e quente.
é o beijo.
e doce.
tão doce.
há lembrança.
e saudade.
que grande.
tão grande.


(maria fernanda)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

sábado, 5 de abril de 2008

é o fim?

quem era um dia foi
quem foi um dia ficou
e quem ficou, talvez
mereceu,
mas quem foi,
um dia também era
e fim


(maria fernanda)

preencher

tinha um espaço redondo
tentei preencher com um triângulo
aproveitei um círculo,
outro quadrado
usei uns losangos
sobrou ao fim,
um espaço redondo
várias formas,
infinitas maneiras
e nenhuma solução

(maria fernanda)

tão simples assim

dizem que a gente ama quem a gente ama, ama.
não é tão simples assim.
dizem que a gente se acostuma com o convívio.
não é tão simples assim.
dizem que a gente aprende a entender.
não é tão simples assim.
dizem que a gente tolera o que precisa.
não é tão simples assim.
dizem que a gente se habitua com a rotina.
não é tão simples assim.

mas eu te amo.
mas eu convivo com você.
mas eu te entendo.
mas eu te preciso.
mas eu me habituei.

porque é tão simples assim

(maria fernanda)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

lágrimas

e brotaram.
brotaram imensas,
e não houve como impedir,
surgiram às margens,
inundaram as bordas.

e transbordaram.
transbordaram emocionadas,
doloridas da luta,
surpresas dos fatos,
das longas partidas.

e escorreram.
escorreram amargas,
salgadas no tato,
frias no gosto,
ásperas aos olhos.

e gotejaram.
gotejaram sozinhas,
únicas,
reféns da dor,
sobreviventes da esperança.

e eram.
foram-se as lágrimas.


(maria fernanda)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

nada a declarar

recentemente tenho tido a tendência de começar a escrever sempre com a mesma frase...: ‘tem dias que...”. andei pensando sobre isso. do porquê dessa referência a determinados dias da minha vida. a algum dia em especial, seja ele positivamente bom ou pior, negativamente ruim. geralmente quando começo assim, algum fato aconteceu em particular que me fez querer colocar aquilo em palavras. tenho percebido também que na maior parte das vezes, parece que a minha insatisfação com o dia é maior que o saldo positivo. em sua grande parte, os textos vêm carregados de críticas. em demasia, há um certo descontentamento com o ser humano, com os fatos do dia-a-dia, com a rotina. não contente, reparei que há sempre um queixume pessoal, uma depressão disfarçada. o fato é que hoje é um dia desses, em que não consigo começar a pensar em escrever sem ser assim, sem dizer que ‘tem dias que a gente está meio assim, sei lá, como hoje’... tem dias que a vida perde sua grandiosidade, as novidades são sempre as mesmas, não há muito entusiasmo nem pra respirar, o céu tem uma cor enjoada, o verso não tem nem graça. só posso fazer concluir que tem dias que são assim mesmo e eu não posso fazer nada. tem dias que percebemos que tudo vai ser igual de novo, e que nos resta esperar de tocaia, o novo dia chegar. sem nada de especial a declarar. e sem nada especial a esperar.

(maria fernanda)

terça-feira, 1 de abril de 2008

casa de mainha

teu cheiro de carinhar
tuas mãos a me afagar
teu colo de descansar

saio de tua casa
e sempre que volto
sua casa ainda é minha

teus cabelos ao soltar
teus pés ao deslizar
em meu coração pousar

entro em tua casa
e sempre que saio
ainda tenho vontade de voltar

(maria fernanda)

pra myatia

toda vez que eu entro aqui,
eu vejo a letra da nossa música.
toda vez que eu vejo a canção,
eu cantarolo dentro da minha cabeça.
toda vez que a canto,
sinto meu coração apertar.
porque ele se sente vazio sem você.
porque ele não consegue mais viver dentro de mim.
longe de você.
e todo meu amor é seu,
todo seu!


(maria fernanda)

duvideodó, duvideo há

não sabia o que te incomodava.
não me importava não te ver.
não te via sem te encontrar.
não te encontrava sem querer.

mas te quis sem pensar.
porque te escolhi sem te precisar.

hoje não sei mais só te pensar.
te preciso sem querer.
te vejo até sem te encontrar.
porque me importas até me incomodar.

(maria fernanda)

sábado, 29 de março de 2008

nada se cria, tudo se transforma (complementa o ontem)

há dois anos esperei pra chegar hoje. não porque desde o primeiro dia de trabalho que eu já queria abandonar o trabalho. mas porque esse dia que chegaria seria o decisivo. quando eu comecei a trabalhar, depois de terminada a faculdade, foi enfim a alforria da dependência (e por conseguinte a conquista da independência), foi o início de uma vida de construção. tudo que todo mundo quer. até aqui nada de novo. (aquela manhã de fevereiro) foi uma glória. mas foi um dia cheio de dúvida também. o que eu vou ser quando crescer? o que eu vou escolher daqui pra frente? estava com a caneta e o cérebro nas mãos, e não sabia nem por onde começar a abrir as gavetas. passei dois anos pensando, e como pensei, e chorei. fui e voltei, escolhi e risquei, aprendi e detestei, encontrei e deixei. viajei. continuei pensando e confirmando a certeza que aquilo, realmente não era o que eu pretendia pra minha vidinha crescida, mas o que eu queria? eu também não tinha a menor idéia. e de repente, numa tarde inesperada (aquela tarde de novembro), fui surpreendentemente apresentada a uma idéia nova e inusitada. fazer uma escolha que pra mim, foi desde o começo realmente a última alternativa. mas a oportunidade inesperada nasceu, modelou-se com gracejo, sorriu com ternura e cresceu vigorosa e rápida sob meus olhos, sobre os nossos olhos. e fui desapropriando em mim o espaço da minha própria duvida e da minha despretensiosa intenção, com um sim, uma esperança e um novo rascunho surgiram e subitamente, encontrei a gaveta certa pra abrir. há dois anos esperei pra chegar hoje. mas agora, esse dia (esta tarde de abril) se aproxima com tanta ânsia que, pasme, tive medo. não sei também se é medo, ou se é na verdade receio, êxtase e admiração, juntos, mesclados num mesmo universo. de repente aquilo tudo que eu subestimei por dois anos mostrou-se como o sólido alicerce real da minha caminhada. a sola da minha sandália, rasgada e gasta. só nestes últimos dias, em que me vejo cumprindo meu papel, livre do peso da insatisfação que vim trazendo comigo nesses longos meses, percebi quanta falta isso vai fazer e quanta angústia amargurada e afogada que vim carregando se vai; me deixando agora respirar a saudável liberdade, despretensiosamente. não termino essa semana com desprezo. ao contrário, com irreverência, termino apenas interpretando esta pausa do recesso do dia internacional do trabalho como a minha pausa de transição. e (nessa manhã de maio) recomeço outro play para o qual se diz: não é uma nova profissão, eu só mudei meu ponto de vista. passei a ver através de outros olhos, dos olhos dos outros.

(maria fernanda)

sexta-feira, 28 de março de 2008

larguei meu emprego - experimente largar o seu - recomeçando

larguei meu emprego.
desse jeito. simples como escrever essa frase - experimente, dá uma sensação de leveza de espírito (se é que espírito pesa).
acordei numa segunda, depois de ter passado uma madruga virando na cama mais que churrasco em padaria, e com aquele olho de baiacu, sobre o travesseiro molhado de lágrimas e a decisão mais sensata que eu devia ter era aproveitar a deixa e largar meu emprego.
já estava insatisfeita, já não aguentava mais ir e vir, queria mudar e faltava coragem, aquela madrugada fatídica e todo aquele vazio que eu sentia por ter sido deixada, realmente eram a gota d'água que faltava, não eram? se tudo já tinha dado errado, que mal tem em largar o emprego e ir em busca de algo novo!
liguei pra minha chefe e comuniquei: 'olha só, como já havia adiantado, pretendia mudar de trabalho, essa data chegou, vou viajar essa semana, volto na outra e fico até dia 20'...assim, simples, direto, de direita, na cara.
e acordei na outra sexta, desempregada.
alívio.
alívi.
alív.
alí.
ali a tortura,
tensão, tensão. e agora?
de repente, me dei conta que a tal madrugada fatídica passou, ele foi embora, com as coisas que ele nem tinha (as que ficaram foram pro lixo), o dia adormeceu e despertou seguidamente, ele sumiu definitivamente (e também passou), e as contas começaram a chegar.
e o que tinha sido tão fácil, passou a ser a tormenta.agora, nem posso pensar em repetir aquela frase, nem vou reler.naquela segunda ele até valia uma das lágrimas, mas hoje, não dá pra comparar nem com o lenço que usei. teria então valido meu emprego? teria valido meu sossego e a serenidade da decisão? será que não devia ter sido mais ponderada?
não sei dizer.mas hoje estou correndo atrás do tempo perdido com ele, do tempo perdido sem me encontrar, do tempo perdido que se perdeu num tempo, que finalmente, está se encontrando novamente.

(maria fernanda)

quinta-feira, 27 de março de 2008

visto de partida

prevew:
petrolina fica à beira do rio são francisco e em torno dela existe um projeto de irrigação do vale, projeto de irrigação senador nilo coelho, de alguns pouco mais de 30Km de raio de extensão. o projeto é divivido em bairros, os núcleos, e em cada núcleo existe uma sede, a vila, onde tem casas e moram os trabalhadores das fazendas dispersas no vale e no projeto. lagoa grande é uma cidade que fica a 50km de petrolina e a uns 20Km dos projetos.
essa é curta mas é curiosa.

senhor antônio, um senhor idoso, 75 anos, paciente da unidade de saúde, em lagoa grande/pe. hipertenso, chegou à consulta, ansioso e preocupado, porque queria viajar. queria ferias. "pois não seu antônio, e o que foi que houve então?" sr antônio, solicita: "a senhora autoriza que eu vá tirar férias?", mas eu? autorizar? lógico! sou apenas a médica. ao menos, questionei, pra onde ele iria: "pra casa do meu filho, na vila do núcleo 8 do projeto nilo coelho". um senhor de 75 anos, me pedindo autorização pra viajar 20km pra casa do seu filho. acho que nunca na vida vou ouvir caso semelhante.

duas semanas depois retorna sr antônio das férias, e eu, empolgada pra saber como tinha sido, ouvi, de duas contas azuis transbordando em lágrimas que insistiam em não cair pela face, apenas inundar a órbita... "dra. foram as férias mais tristes que eu já tive, vi coisas que nunca pensei ainda ver em toda minha vida. não fui pra casa do meu filho na vila do projeto, fui pra casa da minha filha, numa acampamento de sem-terra, a uns 60km daqui. vi gente sendo assaltada todo dia, crianças maltratadas, fome e miséria. sofri, senti dor no peito, muita tristeza."

o que eu podia dizer aquele que eu tinha "autorizado" a viagem. tinha ouvido de um senhor um depoimento simples e sofrido da realidade do nosso país. "vá pra vila da próxima vez, sr antônio, sem surpresas pro seu coração!"... que outro conselho eu podia dar para alguém que depositou em mim a esperança das férias em família e ao contrário, vivenciou em família o sofrimento dos sem esperança.

(maria fernanda)

quarta-feira, 26 de março de 2008

carnaval na bahia!

foram anos de expectativa. foram segundos de constatação. desde minha infância, passei os carnavais no sul do país. lá o feriado de carnaval tem uma conotação de um grande feriadão, cuja quarta-feira nos revela o verdadeiro fim do verão; as férias acabaram e agora o ano começa pra valer. aliás, lá, aqui no nordeste, centro-oeste ou em qualquer lugar do brasil, isso é o fato. o carnaval encerra a temporada. no sul, a tendência é irmos à praia, com amigos, parentes, família, namorado, para curtir os quatro dias de happy end. na areia, na piscina ou saindo à noite às baladas e bares, que estão mais cheios que em toda temporada (ouvindo um pouco de axé com pagode e samba no ritmo frenético mais que o habitual), quando na quarta, é mandatário pegar congestionamentos homéricos nas rodovias para voltar antes do meio-dia. pela televisão, contemplam-se os desfiles na sapucaí, os shows magníficos em salvador e recife, os blocos organizados, a venda de abadás e ingressos. pela televisão. lá não há carnaval de rua, não há a tal festa popular. mas desde a adolescência ouço falar do carnaval do nordeste, em especial claro, o carnaval da bahia. e esse ano, foi o ano da revelação: “finalmente vou passar meu primeiro carnaval na bahia”. e fui. e vi. e ouvi. e reparei. e por fim, verifiquei. quando me vi no meio da multidão, esperando o bloco passar, fui tomada pela seguinte e objetiva pergunta: “é isso? esperei tanto tempo pra isso?”. ressalto aqui que em nenhum momento essa indagação soou um sentido de decepção ou degradação da festa. não sei quanto de sonho eu trazia dentro de mim e também não sei ao certo descrever o que eu esperava encontrar, porque nem eu sei honestamente o que eu imaginava que seria meu primeiro carnaval na bahia. só posso dizer que a realidade confrontou meus dois extremos: minha expectativa era completamente diferente da minha constatação. nem melhor, nem pior. apenas, e muito, diferente. de início, fiquei observando atenta e curiosa a todos os passos e acontecimentos, como se quisesse registrar aquilo pra eternidade. aos poucos, fui reparando nos detalhes, nas peculiaridades de cada folião, na alegria que cada um traz consigo. já com algum tempo, meus pés começaram sozinhos, timidamente, a bater as pontinhas no chão, e o quadril balançando pra lá e pra cá, debilmente. o acanhado corpo, aos poucos, contagiou-se, e quando passava das duas, estava agitando os braços no meio de todos. não posso dar uma nota a minha primeira experiência baiana. contudo, posso afirmar com toda a certeza: a expectativa é a mais ardilosa maquiagem. te faz viver duas vezes a mesma experiência: a vida antes, e a vida agora.

(maria fernanda)

domingo, 23 de março de 2008

a diferença que faz...

conversa vai conversa vem
pensei naquele borrão que você se tornou,
quando passei a não mais te criar.

quando eu mesma me belisquei.
percebi que bela mancha que ao surgir,
eu poderia docemente lapidar.
gentilmente contornar,
lentamente colorir.

escrever um diário, numa folha em branco?
ou uma mancha que tem por fim.
tornar-se uma pintura, uma obra, ou simplesmente.
continuar um borrão?

o que muda nisso tudo, é só o resultado.
a intensidade do sentimento,

pra vivenciar sua recriação,
e a maravilha de te planejar.

é a diferença que faz.

(maria fernanda)

sábado, 22 de março de 2008

quem é você?

quem é você que me desperta do sonho,
me embala em sono,
e corre nas veias

quem é você que acende a luz,
preenche o vazio,
que aquece o frio?

quem é você que me cobra,
que me dispensa e reencontra,
desdenha e recomeça?

quem é você que me humilha,
me faz esperar e sonhar,
e jamais aparece?

quem é você, que tanto recebe,
aproveita, descarta
e volta a cativar?

quem é você, que me usa,
gasta, casta,
confunde, ilude e nada merece?

(maria fernanda)


sexta-feira, 21 de março de 2008

versinho com sono

com tantos sonhos pela vida,
passei o dia assim aqui a esperar,
aliás, foram tantos os sonhos,
todos tão perto,
todos em mim,
que quando resolvi sonhar,
acordei.

(maria fernanda)

domingo, 16 de março de 2008

fraquezas?

meu forte não são os sapatos.
que no chão pisam.
e nos saltos dançam.
meu forte são os pés.
que nos sapatos se apoiam.
nos saltos engrandecem.


meu forte não são os garfos.
que em si espetam.
e entre espaços perdem.
meus fortes são as conchas.
que reúnem e unem.
em porções transferem.

meu forte não são as palavras.
que superficiais sozinhas.
interrogam e afligem.
meu forte são os versos.
que em uníssono gritam.
representam e marcam.

(maria fernanda)

domingo, 9 de março de 2008

um pedido

eu teria te aceito de volta.
teria te acolhido em meus braços,
dentro do meu coração.
eu teria relevado todas as mentiras.
teria entendido todas tuas razões.
teria acreditado em todos os teus motivos.
eu teria realizado seus desejos,
teria te coberto de beijos.
teria te encontrado de novo.
inventaria desculpas;
aceitaria promessas;
faria novas juras.
teria revelado meus segredos,
e escutado tuas dores;
teria acolhido só suas angústias.
teria falado só as tuas vontades.
saberia só tuas verdades.
beberia somente seu amor.
dedicaria ainda mais tempo.
teria criado novas horas,
e cultivado novos hábitos.
teria te amado em dobro.
respeitaria ainda assim.
teria te querido muito mais.
teria sido de novo somente tua.
bastava um pedido teu.
perdoaria sem questionar.
porque sou mulher,
e era tua.

(maria fernanda)

sábado, 8 de março de 2008

sexta-feira, 7 de março de 2008

não belisca

andei mais duas quadras pra passar no seu trabalho. virei na outra esquina pra espiar seu portão de casa. sentei na mesa ao lado no bar no sábado a tarde. dei uma olhada discreta na hora que você passou folião no carnaval. se fui vista? não sei. esse mistério delicioso e essa relutância programada durou tempo. uma expectativa infantil, um sonho adolescente. quem é você? além do rapaz da loja, do bebedor do barzinho, do morador da rua detrás. além de todas as formas que você sempre se impôs em minhas fantasias, o que mais seria você? num impetuoso atropelo, numa pressa instintiva, uma mensagem, um adeus, um sorriso ingênuo te revelaram. quem continuaria sendo você, se eu tivesse te mantido imaginário?te ouvir foi te rascunhar.te encontrar foi te projetar.te beijar, ah!, te beijar, foi te apagar.eu mesma me belisquei, e assim, borrei por fim a melancólica maravilha que era te criar.

(maria fernanda)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

reviver

te adorei mais que à própria vida;
desejei teu corpo como à liberdade;
sonhei-te como um vício;
planejei-te com doçura.

desprendi de mim qualquer possibilidade de um dia voltar a ser o que fui.
tu inovaste minha vida como quem dá cor a uma tela
e preencheste de luz o antigo vazio da minha alma.

rude e realista trouxe-me o hoje à mente,
a completa cruel certeza da incerteza,
a fragilidade dos sentimentos,
a dor invisível do fracasso.

tão rapidamente entraste e saíste: levaste contigo toda esperança.

deixaste-me só,
sem liberdade,
sem vício,
sem doce,
sem cor,
sem luz.

(maria fernanda)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

deixa o tempo comigo

não preciso de ninguém dizendo onde está errado; ou que ele não te merecia; ou pior, que você merecia coisa melhor. não preciso do racional, do sensato, do justo. não aquele politicamente correto do seja forte, enfrente, lute, vá adiante. não preciso ninguém me apontando os defeitos e as falhas, porque estou vendo todas, e tanto estou vendo, e tão bem, que estou sofrendo. se a gente já não soubesse que está errado, e se a gente já não tivesse certeza que merecia coisa melhor, ou se a gente não fosse tão racional e justo, tão sensato e forte, se a gente não tivesse certeza de que uma hora vai passar, a gente se jogava do décimo andar, com cem quilos de arroz amarrados no corpo, pra queda ter mais peso e com a boca cheia de formigas pra queda ser bem dolorosa! a gente tá lutando sim, pra caramba. o que nos falta, e aí, isso são poucas as pessoas que conseguem perceber, é mimo. é aquele carinho, aquele cafuné descompromissado de resposta, aquele abraço, sem perguntar se você está melhor, porque é óbvio, pela sua cara, você não está melhor. é aquele afago na alma, dizer que sofreria por você, que não quer te ver triste assim, mas que se te escuta chorando, não vem com o discurso longo; se te vê chorando, te puxa a coberta, fecha a cortina, e deixa você quieta no seu canto. é desse tipo de carinho que a gente precisa. o carinho calado mas que fala mais alto. é esse carinho que faz você ter vontade de falar de vez em quando, e de repente, te faz se sentir perdendo tempo, e por um lapso, no meio do vazio, a gente levanta e faz uma coisa nova e volta ao casulo. mas essa oscilação do vai e volta, do estar bem estar mal, aí, é o começo, a glória, o início de uma nova fase, que muitas vezes, demora passar, mas, a gente sabe, não precisa repetir com cara de sabichão, passa, passa sim. deixa o tempo conosco, e deixe conosco o que a gente faz com o nosso tempo. uma hora, o tempo passou, a dor passou, e a gente fez dele, com ele, o que de melhor pôde.

(maria fernanda)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

o que me importa

já dizia chico, 'tem dias que a gente sente como quem partiu ou morreu'. a gente chega em casa antes do horário normal, achando que vai produzir horrores, e quando olha, não fez nada, não produziu nada, e já está na hora habitual de chegar. a gente nem bem chegou e o tempo partiu. e nesse mesmo dia de horas vazias com resoluções vazias, e nada acontece, como se a gente nem fizesse mais tanta diferença assim na vida, como mesmo quem morreu. são nessas horas que a gente se dá conta da nossa insignificante presença. o dia transcorre sem mais emoções e sem problemas, e você podia ter ficado deitado em casa o tempo todo que nada ia mudar. o telefone não toca, a vizinha não chama, a fome não vem. sua ausência é presente no começo, mas depois, a vida progride sem delongas. tem dias que a gente sente como quem viveu sem viver. como quem boceja sem ter sono. e nesses dias, a gente aprende a se aproveitar mais. porque aprende que partir ou morrer depende de nós, depende da importância que damos a nós mesmos.

(maria fernanda)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

bem que eu percebi...

a gente que vem pro nordeste tem o costume de achar que todo nordestino fala igual: o sotaque do baiano, do permabucano, do paraibano ou do cearense é sempre igual. curiosamente, a gente que vem pro nordeste tem o costume de causar a sensação que todo sulista fala a mesma coisa: o sotaque do carioca, do paulista, do paranaense ou do gaucho, é tudo a mesma coisa. venho de curitiba, falo curitibês. sou loira branquela e alta, venho de outro lugar do país. mas é só isso. meus pacientes acham isso uma atração à parte a minha profissão. em alguns lugares que trabalhei, já tive pacientes que agendaram consulta simplesmente pra poder ver de perto a doutora galega que chegou. "mas o senhor sente alguma coisa? não, doutora, só queria saber como é a senhora porque tá todo mundo comentando". já tive pacientes que me pergutaram se eu era boliviana (nego esta nacionalidade uma vez por semana, mas já estou começando a questioná-la!), colombiana, argentina, ou, bizarramente, das filipinas. mas tudo bem. o pior vem quando é a primeira consulta, a paciente passa o tempo da consulta te examinando, e vem o desfecho. você está explicando a receita, "senhora, 5mL do xarope, de seis em seis horas, ou seja, às seis da manhã, ao meio dia, às seis da tarde... vou repetir pra senhora não ter dúvida... à meia noite", e pra conferir, pergunta: "entendeu?", e a paciente docemente responde a sua pergunta, "a senhora não é daqui, é?"... bom, realmente, não entendeu, nem me escutou, não está nem aí pro tratamento, sobre o que mesmo eu falei, foi sobre átomos, fecundação ou jardinagem? e, com o mesmo sorriso paciente e dócil, respondo, sempre igual, "não senhora, não sou daqui, sou do sul do país." alguns aceitam essa afirmativa de maneira simplista, como uma resposta completa, definitiva e suficiente. outros, porém, advém com complementações, e aí sim, vale a pena conferir. "ah, do sul, bem que eu percebi pelo sotaque...", ou, "do sul? a senhora tem certeza que não é colombiana?", ou pra mim, a melhor resposta: "do sul, já tinha percebido, sou bom pra reconhecer sotaques"... meu amigo japonês (japonês, filho de japoneses, olhos puxados, assim, alguém bem típico de sua etnia nipônica) já passou por situação semelhante, "sim, sou japonês...", e a resposta, à altura... "percebi, sou boa pra reconhecer japoneses"... será que é tão difícil ser normal? (aqui, ali, ou em qualquer lugar?)...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

bem vinda

dono do abandono e da tristeza
comunico oficialmente que há um lugar na minha mesa
pode ser que você venha por mero favor,
ou venha coberta de amor
seja lá como for, venha sorrindo
ah, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
que o luar está chamando,
que os jardins estão florindo
que eu estou sozinho cheio de anseio e de esperança,
comunico a toda gente que há lugar na minha dança
pode ser que você venha morar por aqui,
ou venha pra se despedir
não faz mal pode vir até mentindo
ah, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
que o meu pinho está chorando,
que o meu samba está pedindo que eu estou sozinho
vem iluminar meu quarto escuro,
vem entrando com o ar puro todo novo da manhã
oh vem a minha estrela madrugada,
vem a minha namorada vem amada, vem urgente, vem irmã
bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
que essa aurora está custando,
que a cidade está dormindo
que eu estou sozinho
certo de estar perto da alegria,
comunico finalmente que há lugar na poesia
pode ser que você tenha um carinho para dar,
ou venha pra se consolar
mesmo assim pode entrar que é tempo ainda
ah, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
ah, que bom que você veio,
e você chegou tão linda
eu não cantei em vão
bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda

(chico buarque)

sábado, 9 de dezembro de 2006

a cúmplice

eu quero uma mulher
que seja diferente
de todas que eu já tive
de todas tão iguais
que seja minha amiga
amante, confidente
a cúmplice de tudo
que eu fizer a mais
no corpo tenha o sol
no coração a lua
a pele cor de sonho
as formas de maçãs
a fina transparência
uma elegância nua
o mágico fascínio
o cheiro das manhãs
eu quero uma mulher
de coloridos modos
que morda os lábios
sempre que for me abraçar
no seu falar provoque
o silenciar de todos
e seu silêncio obrigue
a me fazer sonhar
que saiba receber
que saiba ser bem-vinda
que possa dar jeitinho
a tudo que fizer
que ao sorrir provoque
uma covinha linda
de dia, uma menina
a noite, uma mulher

(juca chaves)

sábado, 2 de dezembro de 2006

questão de opção

o orgulho seja talvez o maior dos defeitos.
a sensação eminente de humilhar-se ou ser humilhado – moralmente, psicologicamente – transcende qualquer vontade mais íntima do ser humano de se sentir valorizado. ‘segure as lágrimas, olhe com desdém, seja firme e polido’. quase conseguimos levitar de tanta indiferença. o breve passa como um longo intervalo entre a esperança insignificante e o desespero perturbador. anulamos nossa ânsia simplesmente pelo fato de não querermos aceitar o abismo gutural entre o nosso, e o caráter do outro.

talvez o orgulho seja a maior das qualidades.
porque a gente olha no espelho, no espelho da alma, e percebe que caráter não faz parte do pacote uterino. caráter se faz, se cultiva, se vive, se modela. se humilhar com a intenção débil de valorizar-se não lapida caráter nenhum; gangrena-o; o faz pútrido. estimar-se é justamente não abandonar o amor que temos por nós mesmos.

na maioria das vezes, acho que fico com a segunda opção. sábia eu ao modelar meu caráter. sorte a minha ter sido presenteada com o orgulho que faz de mim, alguém que se ama. valor meu, minha dignidade.

(maria fernanda)

sábado, 18 de novembro de 2006

juazeiro da bahia, isso é que é litoral

moro no sertão pernambucano. moro aqui há um ano e meio. em petrolina. do outro lado da ponte, tem juazeiro da bahia. disto 850km de recife/pe, uns 500km de salvador/ba, e ontem tive a descoberta geografica mais atual da minha localização no mapa. na última sexta-feira fui contemplada com paralamas do sucesso. caraca!!! da minha época, da minha geração. lembra quando tocavam em curitiba juntos paralamas, barão e titãs!!! deu tudo certo, achamos vaga pra estacionar pertinho, compramos ingresso barato, sem fila, e ainda, conseguimos cair na multidão da entrada e passar pelo corredor de acesso em menos de cinco minutos, enquanto a fila do outro lado, de carros, de vendedores e de expectadores virava esquina. tudo dando certo, só faltava o show começar e ia ser um flashback do mais saudosista... e começou... bom essa não conheço, deve ser o último lançamento... ah, essa, deve ser do mesmo cd do lançamento... hum, puxa, como estão querendo divulgar esse cd com esses lançamentos todos assim de cara! nossa, a décima, quanto lançamento junto... de repente, herbet viana (que ainda não havia dado boa noite à platéia) entrou com sua moto de gaiato no navio, usando óculos, revirando minha saudade num caleidoscópio sem lógica... aquele monte de música velha que melodiou minha adolescência, que coube em páginas dos meus diários, que cantou minhas angústias e festas, representou minhas lágrimas, cantou meus namoradinhos. e de repente, pra minha alegria, meu coração e alma, alagados, ouviram tudo aquilo que havia querido ouvir desde quando cheguei. foi quando estava pra acabar, que o desfecho bombástico da noite eis que surge do palco. herbert viana empolgado na sua guitarra e na voz, aproveitou a música pra fazer um trocadilho, infelizmente, pra lá de infeliz... "os paralamas do sucesso vão tocar no litoral... e aqui estamos noóóóóósss moçada"... litoral??? é, realmente a gente não pode querer tudo, música boa, da época certa, no tempo errado, numa cidade do sertão. meu erro foi crer que estar ao meu lado (do passado) bastaria... a vida passa, preciso aprender isso. e acho que até a geografia muda.

(maria fernanda)

segunda-feira, 18 de abril de 2005

a gente se acostuma

"eu sei que a gente se acostuma, mas não deveria. a gente se acostuma a morar num apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. e porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. e porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. e porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. e porque, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. a gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. a tomar café correndo porque está atrasado. a ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. a comer sanduíches porque já é noite. a cochilar no ônibus porque está cansado. a deitar cedo e a dormir pesado sem ter vivido o dia. a gente se acostuma a abrir o jornal e ler sobre a guerra. e, aceitando a guerra, aceita os mortos, e que haja número para os mortos. e, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. e, não aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia de guerra, dos números da longa duração . a gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: 'hoje não posso ir'. a sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. a ser ignorado quando precisava tanto ser visto. a gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. e a lutar para ganhar o dinheiro com o que paga. e a ganhar menos do que precisa. e a fazer fila para pagar. e a pagar mais do que as coisas valem. e a saber que cada vez pagará mais. e a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra. a gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. a ligar a televisão e assistir a comerciais. a ir ao cinema , a engolir publicidade. a ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. a gente se acostuma à poluição. à luz artificial de ligeiro tremor. ao choque que os olhos levam na luz natural. às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. à contaminação da água do mar. à luta. à lenta morte dos rios. e se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta. a gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. em doses pequenas, tentando não perceber. vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. e se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. a gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. a gente se acostuma para poupar a vida, que, aos poucos, se gasta e que, de tanto se acostumar, se perde de si mesma..."

(autor desconhecido)

sexta-feira, 4 de março de 2005

lindo e triste brasil

nada que a gente escreva ou conte é capaz de retratar com fidelidade o que é conhecer o brasil. não conheço muita coisa, pretensão minha, mas alguns lugares agrestes (e bota agrestes nisso) eu já fui, e posso contar um pouco. acre, mato grosso do sul, mato grosso, rondônia, bahia, sergipe, pernambuco... tem muita terra pra conhecer, mas o pouco que eu já vi, me faz cada dia amar mais e mais nosso país. cada lugar é um sotaque, um prato típico, um povo, uma lenda, uma banda, uma música, um sol, um céu, um sorriso. cada dia aprendo uma palavra nova, e vejo um olhar diferente, de um povo machucado, que ainda sabe, "sofrendo, cantar e sorrir"... é uma coisa indescritível, que só vivendo pra entender. tem uma música do toquinho, que de maneira esplendorosa, canta um pouco de toda essa emoção.

sou nascido
aqui mesmo neste país
tão gigante
tão franzino
seu destino ao deus dará.
rios e fontes aos montes
e dunas de areia em beira de mar

tudo aqui é mesmo tão lindo morena
pena que o homem não pensa em cuidar
a solidão é viver sem ninguém
em quem poder confiar.

minha gente
é gente deste país
povo lindo
chora rindo
canta na sapucaí.
entre enredo e passista
misturam-se médico, artista e gari.
com muito pouco que temos
ainda sabemos sofrendo, cantar e sorrir
sou do país do futuro
futuro que insiste em não vir por aqui.

somos muitos
e muito podemos fazer
vai rolinha
pintassilgo
voa andorinha
aí tici
nadem golfinhos e peixes
nas águas dos mares, dos lagos e dos rios
quem sabe ainda veremos
o que o poetinha um dia
sonhou, mas não viu.
pátria minha patriazinha, tadinha.
lindo e triste brasil.

(toquinho)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

maria a bahia

pois é gente, faz tempo que não posto nada! desde a despedida, no dia 21 de janeiro. depois dessa data... na quarta seguinte, saí de carro rumo à bahia, e cá estou, cheia de coisas interessantes pra contar. chegamos bom, nossa viagem foi show. uma paisagem maravilhosa, que muda a cada hora de trânsito, desde a mata atlântica, às fazendas de gado e cacau, ao cerrado e caatinga, ao litoral e à selva de pedra sulista. o preço do coco diminui a medida que você sobre o país e os sorrisos aumentam. as ruas também começam a ficar um pouco mais esburacadas e o calor cada vez maior. só viajando pra acreditar. vitória e vila velha são duas cidades lindas, e as praias do espirito santo, inacreditáveis. aqui em cima, a adaptação não é fácil. eu que sempre critiquei os curitibanos, que eram fechados e pouco solícitos, cheguei numa terra em que é justamente o contrário, o oposto mesmo, e nem sempre é tão melhor. a gente perde um pouco a liberdade, o lívre arbítrio. todos querem ajudar tanto que a gente se sente meio talhado, preso, sem poder agir com independência. talvez seja o impacto tão grande, a diferença brutal.aqui, todo mundo reconhece a gente (no caso, eu e minha mãe). fora a cor da pele, o cabelo loiro, a altura e o sotaque, somos quase baianas... e sabe tudo que fizemos, de onde viemos e pra onde vamos. meu trabalho na us ainda não começou mas em breve vai dar flores e vou colher frutos. oportunidades e possibilidades existem e acho que com o tempo vai dar pra fazer muita coisa. já alugamos minha casa, e já compramos fogão, geladeira, máquina de lavar e colchão! amanhã compraremos pratos, talheres e vassouras. quem diria, heim naná? ainda estou sem telefone e sem computador e às vezes uso o computador do hotel. quem não recebeu email, não fique chateado. tenho enviado pra quem em lembro o email de cabeça. assim que estiver online e telefonável, aviso todo mundo. por enquanto, por aqui vou tentar mandar algumas coisas e quem conhece quem me conhece que nos conhece que se conhecem, perguntem novidades, e mandem novidades. beijo em todos e muita saudade!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

título? não sei. autor? interrogado. vale a pena? muito.

a vida é o dever, que nós trouxemos para fazer em casa.
quando se vê, já são seis horas!
quando se vê, já é sexta-feira...
quando se vê, já é natal...
quando se vê, já terminou o ano...
quando se vê, perdemos o amor da nossa vida...
quando se vê, passaram-se 50 anos! agora, é tarde demais para ser reprovado...
se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio...
seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas...
seguraria o amor, que está muito à minha frente, e diria que eu amo...
dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
não deixe te ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
a única falta que terá, será a desse tempo que infelizmente...
nunca mais voltará.

(mário quintana???)

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

o único defeito da mulher

se uma memória restou das festinhas e reuniões de familiares da minha infância, foi a divisão sexual entre os convivas: mulheres de um lado, homens do outro. não sei se hoje isso ainda ocorre. sou anti-social ao ponto de não freqüentar qualquer evento com mais de 4 pessoas, o que não me credencia a emitir juízo. mas era assim que a coisa rolava naqueles tempos. tive uma infância feliz: sempre fui considerado esquisito, estranho e solitário, o que me permitia ficar quieto observando a paisagem. bom, rapidinho verifiquei que o apartheid sexual ia muito além das diferenças anatômicas.

a fronteira era determinada pelos pontos de vista, atitude e prioridades.

explico: no "córner" masculino imperava o embate das comparações e disputas. meu carro é mais potente, minha tv é mais moderna, meu salário é maior, a vista do meu apartamento é melhor, o meu time é mais forte, eu dou 3 por noite e outras cascatas típicas da macheza latina. já no "córner" oposto, respirava- se outro ar.

as opiniões eram quase sempre ligadas ao sentir. falava- se de sentimentos, frustrações e recalques com uma falta de cerimônia que me deliciava. os maridos preferiam classificar aquele ti-ti-ti como fofoca. discordo.

destas reminiscências infantis veio a minha total e irrestrita paixão pelas mulheres. constatem, é fácil. enquanto o homem vem ao mundo completamente cru, freqüentando e levando bomba no be-a-bá da vida, as mulheres já chegam na metade do segundo grau. qualquer menina de 2 ou 3 anos já tem preocupações de ordem prática.

ela brinca de casinha e aprende a dar um pouco de ordem nas coisas. ela pede uma bonequinha que chama de filha e da qual cuida, instintivamente, como qualquer mãe veterana. ela fala em namoro mesmo sem ter uma idéia muito clara do que vem a ser isso. em outras palavras, ela já chega sabendo. e o que não sabe, intui.

já com os homens a historia é outra. você já viu um menino dessa idade brincando de executivo? já ouviu falar de algum moleque fingindo ir ao banco pagar as contas? já presenciou um bando de meninos fingindo estar preocupados com a entrega da declaração do imposto de renda? não, nunca viram e nem verão.

porque o homem nasce, vive e morre uma existência infanto juvenil. o que varia ao longo da vida é o preço dos brinquedos. aí reside a maior diferença: o que para as meninas é treino para a vida, para os meninos é fantasia, é competição. então a fuga os acompanha o resto da vida, e não percebe quanto tempo eles perdem com seus medos. falo sem o menor pudor.

sou assim. todo homem é assim. em relação ao relacionamento homem/mulher, sempre me considerei um privilegiado. sempre consegui enxergar a beleza física feminina mesmo onde, segundo os critérios estéticos vigentes, ela inexistia. porque toda mulher é linda. se não no todo, pelo menos em algum detalhe. é só saber olhar. todas têm sua graça. e embora contaminado pela irreversível herança genética que me faz idolatrar os ícones de cafajestismo, sempre me apaixonei perdidamente por todas as incautas que se aproximaram de mim. incautas não por serem ingênuas, mas por acreditarem...

porque toda mulher acredita firmemente na possibilidade do homem ideal.

e esse é o seu único defeito.

(sérgio gonçalves, redator da loducca, publicado no jornal da agência)

a lista

faça uma lista de grandes amigos
quem você mais via há dez anos atrás
quantos você ainda vê todo dia
quantos você já não encontra mais
faça uma lista dos sonhos que tinha
quantos você desistiu de sonhar
quantos amores jurados pra sempre
quantos você conseguiu preservar
onde você ainda se reconhece na foto passada ou no espelho de agora
hoje é do jeito que achou que seria?
quantos amigos você jogou fora
quantos mistérios que você sondava
quantos você conseguiu entender?
quantos defeitos sanados com o tempo
eram o melhor que havia em você
quantas mentiras você condenava
quantas você teve que cometer
quantas canções que você não cantava
hoje assobia pra sobreviver
quantos segredos que você guardava
hoje são bobos ninguém quer saber
quantas pessoas que você amava
hoje acredita que amam você?

(osvaldo montenegro)