mandaladesenho geométrico
papel, lápis aquarelável, quadradinhos de 3x3mm
(maria fernanda)
uma coletânia de coisas que eu faço, outras que gosto. fotos, colagens, imagens do mundo real. música. e o que se quiser.










artista peter callesen.
curaça, bahia
xique-xique na bahia
xique-xique na bahia
xique-xique na bahia
xique-xique na bahia
represa de sobradinho
rio são francisco, petrolina e juazeiro
rio são francisco, petrolina e juazeiro
rio são francisco, petrolina e juazeiro
represa de sobradinho
travessia de rodeadouro
juazeiro da bahia
latitude 9
represa de sobradinhomas te quis sem pensar.
porque te escolhi sem te precisar.
hoje não sei mais só te pensar.
te preciso sem querer.
te vejo até sem te encontrar.
porque me importas até me incomodar.
(maria fernanda)
há dois anos esperei pra chegar hoje. não porque desde o primeiro dia de trabalho que eu já queria abandonar o trabalho. mas porque esse dia que chegaria seria o decisivo. quando eu comecei a trabalhar, depois de terminada a faculdade, foi enfim a alforria da dependência (e por conseguinte a conquista da independência), foi o início de uma vida de construção. tudo que todo mundo quer. até aqui nada de novo. (aquela manhã de fevereiro) foi uma glória. mas foi um dia cheio de dúvida também. o que eu vou ser quando crescer? o que eu vou escolher daqui pra frente? estava com a caneta e o cérebro nas mãos, e não sabia nem por onde começar a abrir as gavetas. passei dois anos pensando, e como pensei, e chorei. fui e voltei, escolhi e risquei, aprendi e detestei, encontrei e deixei. viajei. continuei pensando e confirmando a certeza que aquilo, realmente não era o que eu pretendia pra minha vidinha crescida, mas o que eu queria? eu também não tinha a menor idéia. e de repente, numa tarde inesperada (aquela tarde de novembro), fui surpreendentemente apresentada a uma idéia nova e inusitada. fazer uma escolha que pra mim, foi desde o começo realmente a última alternativa. mas a oportunidade inesperada nasceu, modelou-se com gracejo, sorriu com ternura e cresceu vigorosa e rápida sob meus olhos, sobre os nossos olhos. e fui desapropriando em mim o espaço da minha própria duvida e da minha despretensiosa intenção, com um sim, uma esperança e um novo rascunho surgiram e subitamente, encontrei a gaveta certa pra abrir. há dois anos esperei pra chegar hoje. mas agora, esse dia (esta tarde de abril) se aproxima com tanta ânsia que, pasme, tive medo. não sei também se é medo, ou se é na verdade receio, êxtase e admiração, juntos, mesclados num mesmo universo. de repente aquilo tudo que eu subestimei por dois anos mostrou-se como o sólido alicerce real da minha caminhada. a sola da minha sandália, rasgada e gasta. só nestes últimos dias, em que me vejo cumprindo meu papel, livre do peso da insatisfação que vim trazendo comigo nesses longos meses, percebi quanta falta isso vai fazer e quanta angústia amargurada e afogada que vim carregando se vai; me deixando agora respirar a saudável liberdade, despretensiosamente. não termino essa semana com desprezo. ao contrário, com irreverência, termino apenas interpretando esta pausa do recesso do dia internacional do trabalho como a minha pausa de transição. e (nessa manhã de maio) recomeço outro play para o qual se diz: não é uma nova profissão, eu só mudei meu ponto de vista. passei a ver através de outros olhos, dos olhos dos outros.
(maria fernanda)
larguei meu emprego.
desse jeito. simples como escrever essa frase - experimente, dá uma sensação de leveza de espírito (se é que espírito pesa).
acordei numa segunda, depois de ter passado uma madruga virando na cama mais que churrasco em padaria, e com aquele olho de baiacu, sobre o travesseiro molhado de lágrimas e a decisão mais sensata que eu devia ter era aproveitar a deixa e largar meu emprego.
já estava insatisfeita, já não aguentava mais ir e vir, queria mudar e faltava coragem, aquela madrugada fatídica e todo aquele vazio que eu sentia por ter sido deixada, realmente eram a gota d'água que faltava, não eram? se tudo já tinha dado errado, que mal tem em largar o emprego e ir em busca de algo novo!
liguei pra minha chefe e comuniquei: 'olha só, como já havia adiantado, pretendia mudar de trabalho, essa data chegou, vou viajar essa semana, volto na outra e fico até dia 20'...assim, simples, direto, de direita, na cara.
e acordei na outra sexta, desempregada.
alívio.
alívi.
alív.
alí.
ali a tortura,
tensão, tensão. e agora?
de repente, me dei conta que a tal madrugada fatídica passou, ele foi embora, com as coisas que ele nem tinha (as que ficaram foram pro lixo), o dia adormeceu e despertou seguidamente, ele sumiu definitivamente (e também passou), e as contas começaram a chegar.
e o que tinha sido tão fácil, passou a ser a tormenta.agora, nem posso pensar em repetir aquela frase, nem vou reler.naquela segunda ele até valia uma das lágrimas, mas hoje, não dá pra comparar nem com o lenço que usei. teria então valido meu emprego? teria valido meu sossego e a serenidade da decisão? será que não devia ter sido mais ponderada?
não sei dizer.mas hoje estou correndo atrás do tempo perdido com ele, do tempo perdido sem me encontrar, do tempo perdido que se perdeu num tempo, que finalmente, está se encontrando novamente.
(maria fernanda)
foram anos de expectativa. foram segundos de constatação. desde minha infância, passei os carnavais no sul do país. lá o feriado de carnaval tem uma conotação de um grande feriadão, cuja quarta-feira nos revela o verdadeiro fim do verão; as férias acabaram e agora o ano começa pra valer. aliás, lá, aqui no nordeste, centro-oeste ou em qualquer lugar do brasil, isso é o fato. o carnaval encerra a temporada. no sul, a tendência é irmos à praia, com amigos, parentes, família, namorado, para curtir os quatro dias de happy end. na areia, na piscina ou saindo à noite às baladas e bares, que estão mais cheios que em toda temporada (ouvindo um pouco de axé com pagode e samba no ritmo frenético mais que o habitual), quando na quarta, é mandatário pegar congestionamentos homéricos nas rodovias para voltar antes do meio-dia. pela televisão, contemplam-se os desfiles na sapucaí, os shows magníficos em salvador e recife, os blocos organizados, a venda de abadás e ingressos. pela televisão. lá não há carnaval de rua, não há a tal festa popular. mas desde a adolescência ouço falar do carnaval do nordeste, em especial claro, o carnaval da bahia. e esse ano, foi o ano da revelação: “finalmente vou passar meu primeiro carnaval na bahia”. e fui. e vi. e ouvi. e reparei. e por fim, verifiquei. quando me vi no meio da multidão, esperando o bloco passar, fui tomada pela seguinte e objetiva pergunta: “é isso? esperei tanto tempo pra isso?”. ressalto aqui que em nenhum momento essa indagação soou um sentido de decepção ou degradação da festa. não sei quanto de sonho eu trazia dentro de mim e também não sei ao certo descrever o que eu esperava encontrar, porque nem eu sei honestamente o que eu imaginava que seria meu primeiro carnaval na bahia. só posso dizer que a realidade confrontou meus dois extremos: minha expectativa era completamente diferente da minha constatação. nem melhor, nem pior. apenas, e muito, diferente. de início, fiquei observando atenta e curiosa a todos os passos e acontecimentos, como se quisesse registrar aquilo pra eternidade. aos poucos, fui reparando nos detalhes, nas peculiaridades de cada folião, na alegria que cada um traz consigo. já com algum tempo, meus pés começaram sozinhos, timidamente, a bater as pontinhas no chão, e o quadril balançando pra lá e pra cá, debilmente. o acanhado corpo, aos poucos, contagiou-se, e quando passava das duas, estava agitando os braços no meio de todos. não posso dar uma nota a minha primeira experiência baiana. contudo, posso afirmar com toda a certeza: a expectativa é a mais ardilosa maquiagem. te faz viver duas vezes a mesma experiência: a vida antes, e a vida agora.
(maria fernanda)
conversa vai conversa vem
pensei naquele borrão que você se tornou,
quando passei a não mais te criar.
quando eu mesma me belisquei.
percebi que bela mancha que ao surgir,
eu poderia docemente lapidar.
gentilmente contornar,
lentamente colorir.
escrever um diário, numa folha em branco?
ou uma mancha que tem por fim.
tornar-se uma pintura, uma obra, ou simplesmente.
continuar um borrão?
o que muda nisso tudo, é só o resultado.
a intensidade do sentimento,
pra vivenciar sua recriação,
e a maravilha de te planejar.
é a diferença que faz.
(maria fernanda)
quem é você que acende a luz,
preenche o vazio,
que aquece o frio?
quem é você que me cobra,
que me dispensa e reencontra,
desdenha e recomeça?
quem é você que me humilha,
me faz esperar e sonhar,
e jamais aparece?
quem é você, que tanto recebe,
aproveita, descarta
e volta a cativar?
quem é você, que me usa,
gasta, casta,
confunde, ilude e nada merece?
(maria fernanda)
meu forte não são os garfos.
que em si espetam.
e entre espaços perdem.
meus fortes são as conchas.
que reúnem e unem.
em porções transferem.
meu forte não são as palavras.
que superficiais sozinhas.
interrogam e afligem.
meu forte são os versos.
que em uníssono gritam.
representam e marcam.
(maria fernanda)
te adorei mais que à própria vida;
desejei teu corpo como à liberdade;
sonhei-te como um vício;
planejei-te com doçura.
desprendi de mim qualquer possibilidade de um dia voltar a ser o que fui.
tu inovaste minha vida como quem dá cor a uma tela
e preencheste de luz o antigo vazio da minha alma.
rude e realista trouxe-me o hoje à mente,
a completa cruel certeza da incerteza,
a fragilidade dos sentimentos,
a dor invisível do fracasso.
tão rapidamente entraste e saíste: levaste contigo toda esperança.
deixaste-me só,
sem liberdade,
sem vício,
sem doce,
sem cor,
sem luz.
(maria fernanda)
dono do abandono e da tristeza
comunico oficialmente que há um lugar na minha mesa
pode ser que você venha por mero favor,
ou venha coberta de amor
seja lá como for, venha sorrindo
ah, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
que o luar está chamando,
que os jardins estão florindo
que eu estou sozinho cheio de anseio e de esperança,
comunico a toda gente que há lugar na minha dança
pode ser que você venha morar por aqui,
ou venha pra se despedir
não faz mal pode vir até mentindo
ah, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
que o meu pinho está chorando,
que o meu samba está pedindo que eu estou sozinho
vem iluminar meu quarto escuro,
vem entrando com o ar puro todo novo da manhã
oh vem a minha estrela madrugada,
vem a minha namorada vem amada, vem urgente, vem irmã
bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
que essa aurora está custando,
que a cidade está dormindo
que eu estou sozinho
certo de estar perto da alegria,
comunico finalmente que há lugar na poesia
pode ser que você tenha um carinho para dar,
ou venha pra se consolar
mesmo assim pode entrar que é tempo ainda
ah, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
ah, que bom que você veio,
e você chegou tão linda
eu não cantei em vão
bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
(chico buarque)
eu quero uma mulher
que seja diferente
de todas que eu já tive
de todas tão iguais
que seja minha amiga
amante, confidente
a cúmplice de tudo
que eu fizer a mais
no corpo tenha o sol
no coração a lua
a pele cor de sonho
as formas de maçãs
a fina transparência
uma elegância nua
o mágico fascínio
o cheiro das manhãs
eu quero uma mulher
de coloridos modos
que morda os lábios
sempre que for me abraçar
no seu falar provoque
o silenciar de todos
e seu silêncio obrigue
a me fazer sonhar
que saiba receber
que saiba ser bem-vinda
que possa dar jeitinho
a tudo que fizer
que ao sorrir provoque
uma covinha linda
de dia, uma menina
a noite, uma mulher
(juca chaves)
a vida é o dever, que nós trouxemos para fazer em casa.
quando se vê, já são seis horas!
quando se vê, já é sexta-feira...
quando se vê, já é natal...
quando se vê, já terminou o ano...
quando se vê, perdemos o amor da nossa vida...
quando se vê, passaram-se 50 anos! agora, é tarde demais para ser reprovado...
se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio...
seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas...
seguraria o amor, que está muito à minha frente, e diria que eu amo...
dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
não deixe te ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
a única falta que terá, será a desse tempo que infelizmente...
nunca mais voltará.
(mário quintana???)